Ponto do Caboclo Roxo

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Another Forestry Videopoem! - Outro Videopoema Florestal


TO WHOM IT MAY CONCERN

A Quem Interessar Possa...


Resultado da residência artística de Arte Humano Florestal que experienciei na Nova Galeria Sede, em Campinas (SP), durante o ano de 2016. A Galeria deixou de existir no começo de 2017. Mas a aventura temática que iniciei com o Teatro Florestal do Rio de Janeiro em 1988, faz 30 anos ano que vem! Na realização deste poema audiovisual, foi fundamental o apoio e o talento dos fotógrafos MILTON MONTENEGRO (imagem da capa), DIOGO ZACARIAS e MÁRCIO REZENDE MENDONÇA, a participação de JULIANO PRADO na trilha sonora e a produção de TARCÍSIO VECCHINI. 

An outcome of the artistic residency in Human Forestry Arts held at Nova Galeria Sede, in Campinas (SP), in 2016. The Galery closed its doors by the begining of 2017, but the thematic adventure I got started with the Forestry Theater of Rio de Janeiro in 1988 has endured 3 decades so far. In the making of this audiovisual poem, talent and support from photographers MILTON MONTENEGRO (cover image), DIOGO ZACARIAS and MÁRCIO REZENDE MENDONÇA were essencial, like the touch of JULIANO PRADO in the sound track and the production by TARCÍSIO VECCHINI.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

FRITJOF CAPRA - Um Video Poema Florestal

Dandara enquadra Capra no visor da câmera DV.

Aconteceu no Leme, fronteira de Copacabana, tarde chuvosa  de março no Rio.  Apenas três veículos de comunicação participaram da entrevista coletiva - a TV BRASIL (cuja simpática equipe contribuiu para o êxito dessa missão), o ESTADÃO e este por quê vos falo - o modesto, porém aguerrido e altaneiro, blog POEMAS FLORESTAIS. No momento em que nosso Congresso formaliza a erosão do Código Florestal Brasileiro, um pouco de razão e sensibilidade não nos haverão de fazer mal algum. Com vocês o video-poema-florestal CAPRA 3'. Antes de clicar no vídeo, pause a música ambiente do blog. Breve interatividade para uma melhor experiência audiovisual... Que os versos falem por si. 

Saudações Verdes! 
DANDDARA




sábado, 27 de agosto de 2011

A SAGA AMOROSA DA COBRA NORATO

Cobra Grande, do blog raulbopp.blogspot.com


— E agora, compadre, 
 eu vou de volta pro Sem-Fim.

Vou lá para as terras altas, 
 onde a serra se amontoa, 
 onde correm os rios de águas claras 
 em matos de molungu.

Quero levar minha noiva. 
Quero estarzinho com ela 
numa casa de morar, 
com porta azul piquininha 
pintada a lápis de cor.

Quero sentir a quentura 
do seu corpo de vaivém. 
Querzinho de ficar junto 
quando a gente quer bem, bem;

Ficar à sombra do mato 
ouvir a jurucutu, 
águas que passam cantando 
pra gente se espreguiçar,

E quando estivermos à espera 
que a noite volte outra vez 
eu hei de contar histórias 
(histórias de não-dizer-nada) 
escrever nomes na areia
pro vento brincar de apagar.
       
              COBRA NORATO Parte XXXII

       Se COBRA NORATO é "o mais brasileiro de todos os livros de poemas brasileiros, escritos em qualquer tempo", tal como suspeitava Carlos Drummond de Andrade, Raul Bopp terá sido mesmo "o gênio da raça", conforme celebra o time do pratoantropofagico.blogspot.com. Esse poema, que sozinho bastaria para assegurar ao poeta morada eterna no coração de Antônio Houassis, projeta nossa antropofagia pré-tropicalista num espaço-tempo mágico, pois "o Sem-fim tem um nome (...): seu nome é a Amazônia, por suas águas, suas florestas, suas terras caídas, sua fecundidade, sua efervescência de vida, sua pululação de morte" (Houassis, 1973) e a saga amorosa da Cobra Norato remete-nos a "um retorno ao pré-tempo, ou seja, ao mito"  - destacam as autoras do raulbopp.blogspot.com. O autor, que em seu mergulho de re-descobrimento do Brasil viajou por todo o País, foi fortemente impactado pela floresta, densa e misteriosa, que representaria o "'Brasil cultural subjacente' a um 'Brasil cultural aparente'" (raulbopp.blogspot, 2006) com o qual o modernismo viria romper. E Bopp o faz, segundo Murilo Mendes, forjando "um léxico saboroso" que funde "sabiamente vozes indígenas e africanas" (Mendes, 1973), que subverte com simplicidade a lógica sintática do português 'culto'. Suas aventuras e pesquisas, financiou-as com o próprio trabalho, tendo exercido funções diversas como caixeiro de livraria e pintor de paredes. Talvez por isso, Sérgio Buarque de Holanda afirme que o poeta e sua poesia sejam inseparáveis, já que "formam uma harmonia tão inteira e acabada que dividir um do outro é correr o risco de mutilá-los" (Holanda, 1978).

domingo, 6 de março de 2011

FRENTE PIONEIRA

"A Forest Clearing" (1900) CC  The Powerhouse Museum
Vou derrubar a floresta
E formar uma fazenda
Hoje só tenho uma tenda
E um trator que não presta

Vou à luta, vou à guerra
Armado de moto-serra
E com o suor da testa
Vou derrubar a floresta

Quero devastar a casa
Sombria de tantos bichos
Vou limpar todo esse lixo
Com furor de quem arraza.

Quero desmatar depressa
Bem antes que a chuva venha
Vou reduzir tudo à lenha
E semear fogo à beça

Nas cinzas vou plantar soja
Para ter muito dinheiro
E comprar o mundo inteiro
Que está dentro das lojas

Vim duro para Rondônia
Vou derrubar a floresta
Isalubre que impesta
A nossa bela Amazônia!
(de Pedro Paulo Lomba)

Este poema, do cientista ambiental Pedro Paulo Lomba, era um dos destaques no repertório do Teatro Florestal do Rio de Janeiro. Foi escrito quando o autor era parceiro do arquiteto José Zanine Caldas, na Fundação DAM (Desenvolvimento e Aplicação das Madeiras do Brasil); e criador do Programa Memorial Rondon. Com humor sarcástico, Lomba discreve em seu poema a face mais popular e  progressista de um conflito que ele denominava "Guerra da Clorofila". Atualmente conhecida como "Arco do Destamatamento", esta guerra consiste na disputa mortal por um maior lugar ao sol, entre as florestas nativas (cerrados e pantanais inclusive) e as mono-culturas de exportação (pecuária extensiva inclusive). Tais mono-culturas são um modelo econômico que está em alta desde que se encerrou, pelo esgotamento dos recursos naturais, o ciclo econômico extrativista que justificou a ocupação, a defesa territorial e, por fim, o nascimento do nosso pa-tro-pi. País ironicamente batizado com o nome da árvore que, ao lhe dar à luz, tornou-se uma espécie rara, no mesmo cenário em que fora, outrora, abundante.

A cultura hegemônica daquela colônia de exploração que um dia originou o Brasil, formatou o olhar e o comportamento do brasileiro em relação à natureza tropical. Brasileiro era, aliás, o nome do primeiro agente econômico nacional - o cara que pilhava desenfreadamente o Pau-Brasil, até sua quase extinção e, que, como os tenebrosos bandeirantes, tornou-se herói moral e cívico. Esse brasileiro ancestral via o meio natural, por um lado, como um obstáculo a ser vencido e, por outro como uma incansável vaca leiteira, cujas tetas fartas lhe permitem permanecer "deitado eternamente em berço explêndido", recebendo sempre, como um bebê faminto, sem dar em troca nenhum carinho, nenhum cuidado e nenhum reconhecimento. Parece que esse desamor crônico pela natureza tropical permeia tudo que fazemos e, ainda hoje, nos impede de planejar cidades, hidro-elétricas e agro-negócios direcionados para um futuro de paz humano-ambiental.

Por oferecer-nos esse retrato íntimo do psiquismo do desmatador, "Frente Pioneira" é um dos meus poemas florestais favoritos.  Preciso perceber e recriar conflitos pra gerar dramatrugias. E, como ambientalista, devo compreender o que vai na alma de meu antagonista para, um dia (quem sabe?), tocar seu coração.

sábado, 1 de janeiro de 2011

CHARLES DARWIN - Viajens Nas Florestas do Brasil

Estrada das Paineira, RIO 2010, por Cláudia Zur

“À tarde choveu muito, e senti bastante frio embora o termômetro marcasse 18°C. Logo que parou de chover, foi curioso observar a extraordinária evaporação que se começou a processar em toda a extensão da floresta. A uma altura de 30 metros, as colinas desapareciam em densa neblina branca”(1)

“Durante todo o resto de minha permanência no Rio, residi numa quinta na Baía de Botafogo. (...) A casa em que me achava hospedado estava situada bem debaixo da conhecida montanha do Corcovado. Muitas vezes me entretinha a olhar as nuvens que, rolando sobre o mar, vinham formar um manto logo abaixo do ponto mais elevado do Corcovado. (...) fiz excursões muito agradáveis pelas vizinhanças. Visitei, um dia, o Jardim Botânico, onde cresciam plantas muito conhecidas” (2)

“Em outra ocasião, tendo partido cedo, andei até a montanha da Gávea. O ar estava deliciosamente fresco e fragrante, e as gostas de orvalho brilhavam ainda sobre as grandes liláceas que cobriam de sua sombra a água clara dos riachos. Sentei-me sobre um bloco de granito e desfrutei alguns instantes vendo passar a voar perto de mim um sem número de insetos e pássaros. Os colibris parecem gostar imensamente desses recantos sombrios e solitários.”(2)

“Seguindo uma picada, penetrei no interior de uma nobre floresta e, de uma altura de 150 a 200 metros, pude contemplar um dos soberbos panoramas tão comuns ao redor de todo o Rio. Vista dessa altura a paisagem atinge o máximo de brilho em seu colorido; e todas as formas e sombras ultrapassam de tal modo tudo quanto um europeu possa jamais ter visto em sua terra natal, que não sabe como há de expressar as emoções em seu espírito. O efeito geral sempre me trazia à mente o cenário das óperas nos grandes teatros.”(2)

“O concerto mais paradoxal de som e silêncio reina à sombra dos bosques. Tão intenso é o zumbido dos insetos que pode perfeitamente ser ouvido de um navio ancorado a centenas de metros da praia. Apesar disso, no recesso íntimo das matas, a criatura sente-se tomada por um silêncio universal. Para o amante da história natural, um dia como este traz consigo uma sensação de que jamais se poderá, outra vez, experimentar tão grande prazer.”(3)

“O dia passou-se deliciosamente. Mas delícia é termo insuficiente para exprimir as emoções sentidas por um naturalista que, pela primeira vez, se viu a sós com a natureza, no seio de uma floresta brasileira.” (3)

  1. Cabo Frio, 19-04-1832
  2. Rio, de 23-04 a 05-07-1832
  3. Salvador, 29-02-1832

VIAGEM DE UM NATURALISTA ATRAVÉS DO MUNDO, Volume I
de Charles Darwin, tradução de J. Carvalho, ed SEDEGRA, Rio, 19??
pgs 46 a 53

domingo, 19 de dezembro de 2010

CAMINHO DO MATO - Florestas na Poesia de Agostinho Neto

TEATRO FLORESTAL DO RIO DE JANEIRO Pq Lage 1988 by Márcio RM
Neto confere à floresta a doçura e o aconchego do "lar". É este caminho do mato que a "gente cansada" segue para repousar, fugir das humilhações da escravidão, e amar... O caminho que o Chefe de um clã ou povoado (Soba) segue para unir-se à Lemba (moça ou divindade feminina), sobre um leito de "flores do amor". No Teatro Florestal do Rio de Janeiro, sempre que eu recitava poesias de Agostinho Neto, podia transmitir ao público a força das culturas florestais de raiz bantu, e sua óbvia influência em nosso Afro-Brasil.

Caminho do Mato
Caminho do mato
Caminho da gente
Gente cansada
Óóó - oh

Caminho do mato
Caminho do Soba
Soba grande
Óóó-oh

Caminho do mato
Caminho de Lemba
Lemba formosa
Óóó-oh

Caminho do mato
Caminho do amor
Do amor do Soba
Óóó-oh

Caminho do mato
Caminho do amor
Do amor de Lemba
Óóó-oh

Caminho do mato
Caminho das flores
Flores do amor...

AGOSTINHO NETO
Poeta, Libertador e 1º Presidente 
da República Popular de Angola
.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

NEGROS NATURALISTAS NA OBRA DE DEBRET



'Nègres chasseurs rentrant en ville'  'Le retour des nègres d'un naturaliste'



É principalmente na roça que se criam os negros caçadores. Aí, preparados desde a adolescência para acompanharem as tropas ou simplesmente seus senhores. Andam sempre armados de um fuzil, tanto para sua segurança pessoal, como para conseguir víveres durante as paradas indispensáveis, no meio das florestas virgens.

Este gênero de vida torna-se então uma paixão tão forte para o negro da roça que ele já não aspira a liberdade, senão para entrar nas florestas como caçador profissional e entregar-se sem reservas à atração de uma tendência que beneficia ao mesmo tempo seus interesses.

Outros negros caçadores, dedicando-se mais especialmente às coleções de história natural, fazem estadas prolongadas durante meses nas florestas e voltam uma ou duas vezes por ano, trazendo coleções obtidas para os amadores de história natural que os esperam no Rio de Janeiro.

Para o mesmo fim, a administração do Museu Imperial de História Natural sustenta negros caçadores espalhados por diversos pontos do Brasil.

É fácil conhecer o negro naturalista tanto pelo seu modo de carregar uma serpente viva, como pelo enorme chapéu de palha eriçado de borboletas e insetos epetados em compridos alfinetes. Anda sempre armado de fuzil e com sua caixa de insetos a tira-colo…

Sabe-se também no Rio de Janeiro, pela intensificação das atividades dos negros naturalistas, da chegada de navios franceses, pois os oficiais destes são em geral grandes amadores de coleções de história natural.

Jean Baptiste Debret, 1839

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

RIO - "A GUERRA DO MATO"

"O que fora no começo do século (XVII) um simples refúgio de escravos era agora um conjunto de populosas e florescentes comunidades espalhadas por um território de selva (...) Quase todas ficavam em lugares montanhosos e iminentes às principais vilas da capitania" [em Freitas, D., op cit. pg 71] 
O Rio precisa que as florestas urbanas se multipliquem, afim de evitar catástrofes ambientais. Mas ao invés de criarmos políticas públicas que promovam a cultura florestal que nos legou o fenômeno Floresta da Tijuca - pioneiro e único no mundo em suas dimensões - vemos esse mesmo espaço abrigar um recrudescimento de antigos problemas sociais. Em São Conrado, as trilhas se abrem, sobretudo, para a circulação de bandos armados; a floresta é, antes de mais nada, um observatório da movimentação policial e um espaço livre para a prática de violências. Gostaria de ver meninos da Rocinha tornarem-se reflorestadores, conscientes da importância da Mata Atlântica e capacitados para conviver com Ela de modo pacífico, economicamente viável e "dentro da lei". Todavia, vejo reinar o medo na Estrada da Gávea Pequena, nas Canoas e no Alto da Boa Vista... onde as maiores vítimas da nossa "guerra do mato" foram os moradores de classe média alta, "expulsos" de suas belas moradias por constantes "hordas" de "bandidos selvagens", que conhecem a floresta como a palma de suas mãos.

Eu mesma, com toda minha "pretinhosidade" pró-floresta, sai corrida de uma bucólica casinha no Caminho do Córrego Alegre (ao lado da residência oficial do Prefeito), em dezembro de 2007, após um assaltante colocar uma arma no meu nariz, bem ali na sala de casa. Segundo informaram meus vizinhos, aquele mesmo homem fizera roubos naquela mesma rua, em 2005, e retornaria em 2009 para novas incursões sobre o patrimônio alheio. Devemos supor uma conivência das autoridades, ou concluir que a sociedade hegemônica euro-brasileira simplesmente tem um desprezo ancestral pela floresta, considerando que só plantações de soja transgênica, asfalto e concreto é que tem valor? Esta seria uma resposta maniqueísta e uma grosseira simplificação, afinal, Pedro II e José Bonifácio eram luso-brasileiros e percebiam na floresta tropical seus valores estéticos e geo-políticos. Igualmente burra é a tenaz perseguição aos cultos afro-ameríndios "pagãos", que precisam de áreas florestadas para sua liturgia e que tanto podem nos ensinar sobre Elas.

Não tenho respostas; só tenho perguntas... Vou seguir de olho no noticiário, que está fazendo fever todas essas idéias na minha mente. Me dói muito ver as imagens dos traficantes fugindo pelo mato como animais. Não consigo deixar de pensar nos meus antepassados que (com certeza) foram escravos fujões e totalmente contrários à lei colonial. Porém, o que me mobiliza é a certeza de que essa criminalização da nossa herança quilombola tem que acabar. Espero, de coração, que os traficantes do Cruzeiro e do Alemão não consigam se estabelecer na Rocinha, nem em nehuma outra comunidade próxima à minha amada Floresta da Tijuca. Encerro esta reflexão com mais um trecho da obra de Décio de Freitas sobre as táticas dos guerreiros de Palmares. Semelhanças com o comportamento das quadrilhas cariocas talvez não sejam meras coincidências.
"Não temiam que os buscássemos nestes seus alojamentos (...) por ser muito coberta a campanha e eles tão destros nela que, metendo-se pelos matos, e sustentando-se de animais e frutos silvestres, tão fácil lhes era largar uma das aldeias quando os buscávamos, como ocupá-las outra vez, quando as largávamos." [Frei Loreto Couto, em Freitas, D., op cit. pg 85]  
"Última singularidade da tática palmarina: raramente aceitavam combate, mantendo quando muito encontros rápidos e desconcertantes seguidos de fugas para o mato." [idem]

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

RIO: HERANÇA QUILOMBOLA (AINDA) CRIMINALIZADA

Até quando a herança quilombola, da imensa descendência bantu, permanecerá criminalizada pela sociedade brasileira, fiel às suas raízes coloniais? Paralelos entre narrativas do século XVII e do século XXI, mostram o quanto nossa civilização hegemônica é (ainda) anti-florestal. Apesar dos louváveis esforços midiáticos da Natura, do Bradesco e do príncipe Charles, o topônimo “mata” persiste em nosso vocabulário corrente como sinônimo de “Inferno Verde”, terra de ninguém, abrigo de mal-feitores, pretos fujões, “índios da terra”... e outros contraventores da “lei e da ordem”. Não venho, porém, fazer apologia da desordem. Também sou fã do Capitão Nascimento (além de achar o Wagner um super-gato soteropolitano!) e argumentei com amigos, desde o primeiro Tropa, refutando acusações de que o filme era “facista”, que finalmente surgira uma dialética na abordagem cinematográfica da nossa guerra urbana. Até o Tropa I, a polícia das nossas produções áudio-visuais era, via de regra, errada e corrupta; e a bandidagem uma mera consequência da injustiça social. Quero apenas ressaltar o meu cansaço com a estabilidade de certas premissas, e com a demora em certas mudanças na consciência nacional. Se agora a polícia está bem na foto da opinião pública, e encarna o “lado bom” dos discursos maniqueístas, porque a cultura quilombola bantu, que tem nas favelas do Rio seus maiores enclaves populacionais, é ainda "fora da lei"?

A analogia não é arbitrariedade minha, aprendi na Mangueira, em janeiro de 2000, durante a breve negociação que mantive com um senhor que se apresentou com irmão do “dono do Morro”, para obter permissão de subir com a equipe do Canal Brasil. Queríamos gravar cenas pro making of do GURUFIM, meu primeiro curta. Eu, pretinha e de cabeça raspada, meses após minha iniciação religiosa, me qualifiquei como diretora (“dona do filme”) e ele logo concordou, dizendo: “como tu é da cor, eu vou abrir o quilombo pra você.” Na época me emocionei e me senti, secretamente, cúmplice daquele “criminoso”, por sermos ambos Negros e herdeiros históricos da epopéia de Palmares. Mas hoje, mãe e avó, estou sem nenhuma paciência pra ver a sabedoria dos meus ancestrais continuar a ser tratada com tanta ignorância e preconceito. A imagem do “bando” de homens pretos fugindo pela estrada de terra, escondendo-se dos tiros entre a vegetação, me trouxe de imediato à mente uma fuga maciça de escravos, cuja “liberdade” dependia da intimidade com a floresta e as fronteiras da civilização. Quero desfazer essa associação. Espero que os traficantes sejam presos, que a juventude Negra tenha direito à cidadania plena, e que nossa cultura florestal popular seja, enfim, reconhecida. Quanto tempo ainda até integrarmos o legado positivo dessa tradição milenar, em que se destaca a inteligência coletiva que resultou no reflorestamento heterogêneo da Tijuca? Enquanto esse dia não chega, as semelhanças entre os trechos de cartas escravagistas de 350 anos atrás com citações da internet... são de cortar o coração... Julguem por si mesmos. Bjs, Dan.
__________________________

Os índios da terra logo se vão para o mato onde fazem abomináveis vivendas e ritos, juntando-se aos negros da Guiné, também fugidos, do que resultam mortes, furtos escandalosos e violências, motivo pelo qual não se pode atravessar o sertão comodamente de uma parte à outra, nem dilatarem-se as populações terra a dentro.” (Diogo de Menezes, Governador de Pernambuco, 1612) [em: Palmares a Guerra dos Escravos, por Décio de Freitas, ed Graal, 1982, Rio, pg 41]

O Rio presenciou ontem uma das maiores ações de ocupação policial em favelas, com o avanço da polícia pela Vila Cruzeiro, que faz parte do Complexo da Penha (...) onde vivem cerca de 400 mil pessoas. Foram usados 150 policiais do Bope, mais 200 da Polícia Civil e 30 fuzileiros navais. A Vila Cruzeiro foi alvo da operação porque (...) serviria de esconderijo para líderes de facções desalojados pelas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). A operação provocou fuga em massa de traficantes (...) rumo à área de mata conhecida como Inferno Verde e, na sequência, para as favelas do vizinho Complexo do Alemão. [em:www.destakjornal.com.br 26/10/2010]

Neste Palmares em que assistem os negros há um lugar, a que chamam, outeiro da Barriga, que em algum tempo habitaram com fortificações que fizeram de estacadas e fossos para defenderem melhor a grande povoação que aí tinham (...) Costumam os governadores, com grande zêlo do serviço de Sua Magestade e desejo de extinguir aqueles rebelados e fugitivos escravos, mandar todos os anos a mais gente que podem, acometerem os Palmares. Vão os soldados pagos e da ordenança a esta guerra (...)” (João Fernandes Vieira, Pernambuco, 1612) [em: Freitas, D., op cit, pg 111]

Numa ação ousada, que envolveu cerca de 600 homens e logística da Marinha do Brasil, a polícia do Rio deu uma resposta ao tráfico que entra para a história do Rio como uma das mais contundentes dos últimos anos. Com ela, cai por terra um velho mito, sempre lembrado desde o início das Unidades de Polícia Pacificadora, de que os grandes complexos de favelas da cidade, como a Penha e o Alemão, eram territórios do tráfico quase inexpugnáveis.(...) A fortaleza do narcotráfico revelou-se de papel, suscetível a uma operação que combinasse tropa treinada e surpresa tática. De símbolo do poder paralelo, que dela se apoderou por vários anos, a Vila Cruzeiro passa a troféu do estado (...) Passando sobre todas as barricadas que os traficantes instalaram nos acessos ao morro, (...) carros blindados sobre esteiras, pilotados por fuzileiros navais (...) avançaram por dentro das vielas, empurrando o que estivesse pela frente e obrigando os traficantes a uma fuga em massa pela mata. (...) Pelo menos 200. Agora, são as polícias Civil e Federal que fazem um cerco na região para capturar o bando. [em: Blog do Noblat 26/11/2010]

Os negros como conhecedores dos intrincados caminhos e escondidos lugares lhes armam ciladas, matando a muitos (...) ; vendo-se apertados retiram-se pelos Palmares adentro onde não podem ser seguidos, porque aquelas estradas só eles sabem e podem andar e dentro daquele labirinto de troncos têm retirada suas famílias, tanto que, como fica dito, têm aviso de que os buscam nossas armas.” (João Fernandes Vieira, Pernambuco, 1677) [em: Freitas, D., op cit., pg111]


A medida em que o cerco aumenta, é possível ver a agitação dos bandidos. Na estrada de terra, alguns homens armados seguem a pé. O reforço para a fuga chega em motos. Nesse momento, a correria e marcas no chão indicam que tiros são disparados na direção do bando. Logo atrás, uma caminhonete sai da favela lotada.(...) A correria continua. Um dos bandidos é baleado e cai. É socorrido por um comparsa. A todo o instante surgem mais traficantes armados. Contamos pelo menos 200 homens. Eles começam a cortar caminho pela mata. Ao ver essas imagens, duas perguntas: para onde esses bandidos estão indo? E a polícia, não estava preparada para essa fuga em massa? [em: www.g1.globo.com/jornal-nacional 25/11/2010]


Não podiam os comandantes das expedições contar com a vantagem tática da surpresa. Mil olhos de escravos observavam os preparativos e logo a notícia chegava aos Palmares, dando tempo aos chefes negros para organizarem a defesa, que geralmente consistia em evacuar povoaçãoes abrangidas nos planos do inimigo e mergulhar na selva. (...) A tática palmarina, chamada no tempo de “guerra do mato”, confundia e exasperava os comandantes das expedições. Não se pode deixar de compará-la à da rainha de Matamba na guerra contra a invasão portuguesa. Como aasinalou em 1867 o missionário capuchinho Cavazzi, aludindo às guerras congolesas: “A grande arte na condução da guerra, consiste em evitar o inimigo”. [em: Freitas, D., op cit, pg84/85]

domingo, 7 de novembro de 2010

AUTO DA PREGAÇÃO DO UNIVERSO

É bom dançar, enfeitar-se
E tingir-se de vermelho;
De negro as pernas pintar-se
Fumar e todo emplumar-se,
E ser curandeiro velho.

Enraivar, andar matando
E comendo inimigos,
E viver se amancebando
E adultérios espiando (…)

trecho da obra teatral de
José de Anchieta, 1561

terça-feira, 21 de setembro de 2010

REI DA MATA

O seu coronel mandou
Mata virgem derrubar
Pro mode naquela terra
Mil pés de café plantar

A mata foi se sumindo
Vamos gente, acabar!
Preto Velho até chorava:
-- Rei da Mata vão matar

Quando o machado cortou
O velho Jacarandá
Ouviu-se um gemido triste
Nas quebradas reboar

Jacarandá Rei da Mata
Veio Quatorze esmagar
Todos quizeram fugir
Nenhum puderam andar

O Rei da Mata castiga
Quem vem mato derrubar
Os mais velhos já diziam
Primeiro vamos rezar...

Versos anônimos, do cancioneiro
popular do Vale do Paraíba do Sul
em "BRASIL VIVO  -  Uma Nova
História da Nossa Gente" de Chico
Alencar, M.V. Ribeiro e C. Ceccon
ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1986

sábado, 18 de setembro de 2010

A CARTA DE CAMINHA

Senhor:

Posto que o Capitão-mor desta nossa frota, e assim outros capitães, escreveram à Vossa Alteza a nova do achamento dessa vossa terra nova, (…) não deixarei também de dar disso conta à Vossa Alteza, assim como eu melhor puder. (…)

E nesse dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra, seja, primeiramente de um grande monte, mui alto e redondo, e doutras terras mais baixas ao sul dele, e de terra chã, com muitos arvoredos; ao qual monte alto o Capitão poz nome – o Monte Pascoal e à terra – Terra de Vera Cruz.

Ali verieis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos, como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. (...) A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nús, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. (...) Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de nós as muito bem olharmos não se envergonharam (ou: não nos envergonhamos).

Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessaram alguns papagaios essas árvores; verdes uns, e pardos, outros, grandes e pequenos, de sorte que me parece que haverá muitos nesta terra. (...) Vários diziam que viram rolas, mas eu não as vi. Todavia, segundo os arvoredos são muitos aqui, e grandes, e de infinitas espécies, não duvido que por esse sertão haja muitas aves! 

E cerca da noite volvemos para as naus com a nossa lenha.

E foi o Capitão com alguns de nós um pedaço por este arvoredo até um ribeiro grande, e de muita água… Ali descançamos, bebendo e folgando, ao longo dele, entre esse arvoredo que é tanto e tamanho e tão basto e de tanta qualidade de folhagem que não se pode calcular. Há lá muitas palmeiras de que colhemos bons palmitos.

Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra aqui é de muito bons ares… Em tal maneira graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por causa das águas que tem.

E dessa maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco me alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que eu tinha de vos tudo dizer, mô fez assim, pelo miúdo.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, 
hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.

Pero Vaz de Caminha

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

CARNAVAL URBANO FLORESTAL

Quando os varões portugueses
As penetraram pela primeira vez
As virgens terras brasileiras
Eram um verdaeiro Inferno Verde!
Lar de bárbaros nudistas
Bruxas, bestas e todos os tipo
            de insetos peçonhentos...

Desde então, Eles tem dado duro
Pra deixar a Terra totalmente limpa!
Mas parece que não funcionou...
É portanto, que até este instante,
O Brasil tem sido esse
Carnaval urbano florestal!

No Rio a Floresta reina
E a Natureza domina o Homem...

escrito por Danddara em Nova York, 1994
gravado no mesmo ano no Studio Pass 
como parte da Residência Artística
concedida pela Harvestworks Inc.

URBAN FORESTRY CARNIVAL

When the Portuguese men
First penetrated
The virgin lands of Brasil
I was such a Green Hell
Home of nudist barbarians
Witches, beasts and all kinds
              of poisonous insects.

Since then, they´ve been trying hard
To get the Land totally clean!
But it hasn´t quite worked...
That´s why, until now
Brasil has been
Such un urban forestry carnival!

In Rio the Forest rules
And Nature submits Mankind...

written by Danddara in New York, 1994
Recorded @ studio pass as part of the
Harvestworks Inc. Artistic Residence Prize